terça-feira, 27 de julho de 2010

MARX e O CONCEITO DE MAIS-VALIA


O conhecimento sobre Karl Marx é essencial para se compreender e se desenvolver no estudo de Economia Política. Mais conhecido por sua obra “O Capital” e suas idéias controversas, Marx viveu boa parte de sua vida em meio à miséria e ajudado principalmente pelo amigo Friedrich Engels também cientista social.
No entanto é um desafio o entendimento dos conceitos do revolucionário alemão, mesmo estudiosos do assunto reconhecem sua dificuldade. Muito se deve aos fatos ligados diretamente ao transcorrer de sua vida, como Raymond Aron à época professor em Sorbonne (França):

O estudo científico, isto é, ao mesmo tempo filosófico e histórico, do pensamento de Marx se apresenta sob condições singulares, por duas razões essenciais: as particularidades da própria vida de Marx e o destino póstumo de sua obra. Tentarei analisar as duas origens dessas dificuldades excepcionais (ARON, 2003, p.21).

Apesar de ser mais conhecido por um único escrito, Marx, foi autor de vários livros entre eles: Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel; Manifesto comunista; As lutas de classe na França de 1848 a 1850; O 18 brumário de Luís Bonaparte; Introdução geral à crítica da economia política; Fundamentos da economia política; Contribuição à crítica da economia política; O Capital; Teorias sobre a mais-valia; Trabalho assalariado; Salário, preço e lucro; Crítica ao programa de Gotha. Além disso, escreveu para revistas e jornais entre 1841 e 1864, diante de tão vastos textos é escolhida uma temática única (o conceito de Mais-Valia), pois que uma abordagem mais extensa não seria possível nesse momento.
A escolha pelo assunto é por ser considerado uma das idéias centrais abordadas sobre a ciência da Economia.
Para o filósofo, o conceito provém da idéia de valor, a qual é separada em valor de uso e de troca. O valor de uso é subjetivo, ou seja, varia de quem irá usar, ao passo que o de troca é objetivo, manifestado diretamente nas relações sociais, troca, compra ou venda de produtos. Para o tema o importante é o valor de troca, pois é dele que se elenca o da questão econômica. Assim, Marx diz que a fonte básica do valor não é a circulação do dinheiro, mas o trabalho humano.
Num apanhado sucinto, a concepção de mais-valia é dada através do valor do produto menos o salário paga ao operário. Nisso estão envolvidos, o adiantamento do trabalho ao capitalista, os gastos com os equipamentos e utensílios ligados à confecção do produto e o cálculo que do valor que a mercadoria terá no mercado. Não se deve confundir esta idéia com a de lucro, pois segundo o cientista, este é apenas parte da mais-valia, já que neste estão inseridos também os dinheiros envolvidos com o funcionamento do negócio, além de juros e outras implicações que a propriedade pode permitir. “Toda mais-valia – seja qual for a forma específica em que ela se cristalize (lucro, juros, rendas etc.) – é sempre, substancialmente, a materialização de tempo de trabalho não pago” (KONDER, p.119, 1999).
É interessante notar que, contudo essa opinião a respeito do pensamento não é compartilhada por todos, e por vezes a abordagem é diferente, assim como a construção da conceituação. Numa troca, a mercadoria negociada por meio de dinheiro obtém certo valor, essa mercadoria obtida é despendida em nova venda obtendo-se outro tanto de dinheiro numa quantidade maior, conforme escreve Lênin: “É a este acréscimo do valor primitivo do dinheiro posto em circulação que Marx chama de mais-valia” (CATANI, p.27, 1995).
Como dito anteriormente, todo o momento e o próprio desenrolar das idéias desenvolvidas pelo revolucionário alemão são complexas e mesmo seus conceitos passam por variadas concepções. Primeiro pelo fenômeno histórico experimentado no século XIX.

É desnecessário realçar que esse fenômeno, muito complicado, resultou da concorrência de inúmeras variáveis. O que me interessa sublinhar, antes de tudo, é que nele estão dadas as condições sobre as quais Marx erigirá a sua obra. (NETTO, 1985, p.15).

Depois, pelas mudanças pessoais em que se inseriu o cientista, é indelével a diferença entre os momentos em que se encontra jovem e o que encontra a maturidade:

Mas, é de assinalar que sua obra é fruto de uma longa maturação, que ocupa pelo menos dois quintos do tempo em que Marx trabalhou. Com efeito, na sua trajetória intelectual (de 1841 até o início da década de 80) são perceptíveis momentos diferenciados, interrupções e retomadas (NETTO, 1985, p. 23).

Por fim, outra consideração a respeito da mais-valia é dada por Raymond Aron, como a designação de “valor adicionado”. Assim, é conceituado como a diferença entre as despesas de produção de uma empresa e o valor das mercadorias que esta empresa coloca no mercado. Que para Marx vem unicamente do capital variável, fruto exclusivo do trabalho humano.
Portanto, mesmo diante de diversas perspectivas é possível extrair o essencial do conceito de mais-valia. A importância desse entendimento se dá, pois ele é a chave da teoria filosófica de Marx considerada em especial na leitura de “O Capital”.

Insisti quanto a essa significação maior da teoria da mais-valia porque ela se evidencia em uma certa maneira de ler e de se interrogar “O Capital”. Ela fica evidente na interrogação filosófica de Marx à teoria econômica. (ARON, 2003, p.322).


REFERÊNCIAS

ARON, Raymond, O marxismo de Marx. São Paulo: Arx, 2003;
KONDER, Leandro. Marx, vida e obra. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.
NETTO, José Paulo. O que é Marxismo? 2ª. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
CATANI, Afrânio Mendes. O que é Capitalismo? 34ª. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Assassino

Sou assassino. Andando perdido pelas vielas, olhando desconfiando de todos e desejando sangue. Desvio-me para outro lado, e num gesto mais áspero, olho aquele e já o odeio e quero o morto. Tenho pena dos que atravessam a minha frente, pois morrerão como moscas. A vida deles não tem valor algum para mim. Até mesmo eu surpreendo-me com a frieza dos meus atos. Na verdade nem sei o que pode passar pela cabeça daqueles que depois se arrependem. Muito menos os que questionam os assassinatos hediondos. Para mim é tudo igual. Imagino o que de fato passa nessas mentes, penso ser tudo normal, matar e comer é tudo a mesma coisa. Eu mato. Para depois fazer qualquer coisa, mesmo encontrar uma criança e acariciar-lhe como se fora eu de boa índole. Quem de fora não repara e nem percebe a mente calculista e exterminadora, aquela que não tem remorso. Vê como assim como qualquer outro. Puxar o gatilho, sacar uma faca, dar uma paulada e olhar a vítima sem o menor sentimento, assim sou. Saiam da frente se quiserem sobreviver.

A morte anda ao meu lado e junto comigo sempre esteve. Compaixão, não existe se quero matar, mato e pronto nada sinto a seguir. Sou assassino. É minha natureza, nasci desse jeito, no começo estranhei porque os outros acham matar um ato bárbaro. Tratei de não tocar no assunto e prestei atenção para ser politicamente correto e encobrir os meus desejos de morte. Após as primeiras mortes cheguei a pensar que fosse aparecer aquele tal remorso que outros elucubram, mas nada veio, pelo contrário a satisfação crescia cada vez mais. Quanto mais eu odiava alguém, mas prazer eu tinha, principalmente no dia seguinte, e vinha-me um sorriso indisfarçável no canto da boca. Lembrava do corpo, dos olhares de pavor dos que sabiam que iam morrer. Mas, na maioria das vezes a morte abraçou minhas vítimas pelas costas, com pistolas, metralhadoras, facas e barras de ferro. Ver o corpo cair sem movimentos, molenga, é interessante. Aquilo sem reação. Confesso que elaborar as emboscadas também sempre me excitou. Alguns planos bem elaborados, de tempo e ações. Os medos nos olhos deles também me deixam com uma vontade ainda maior. Na morte das mulheres ou nos fraldinhas o pavor normalmente é exacerbado e é incontrolável o êxtase no meu corpo. Os covardes aumentam mais o desejo de ir além e sacrificar eles até o fim.

Gosto de caminhar no limiar da dor e do medo, na tremedeira deles, nas pernas bambas e até nos que se urinam. O riso vem de imediato, e o choro aumenta e vem a súplica. Dá vontade até de matar mais, de matar duas vezes pena que isto não é possível, pois algumas mortes são imperdíveis. Já pensei até em gravar, mas ficaria monótono. Meu trabalho é esse matar e não deixo rastros, minha “coleção” já passa dos quinhentos, acho que estou perto dos mil. Vez por outra vou ao enterro de um destes só para ver se tem algum que eu queira matar só por esporte. Pois é diversão também. Outro dia comecei a perceber que “tenho” jazigos próximos, um do lado do outro. Queria fazer uma fila. Infelizmente quando se mata da mesma família, o jazigo ou é o mesmo ou ficam longe.

É incrível também como meu nome nunca apareceu na mídia, também pudera, quem iria ia desconfiar de um homem como eu. Certinho, caridoso e de boa família. Quase um exemplo. Sem falar que algumas mortes sequer têm alguma ligação comigo. Escolho, sigo de longe e se não for naquele dia, da semana não passa. É na maioria das vezes ao acaso. Rio no dia seguinte, com os policiais atordoados sem saber por onde procurar, buscando quem tem motivos. Não preciso de motivos! Por isso é tão complicado chegar até mim. Além disso, jamais executo perto de onde moro. Prefiro os subúrbios. Lugares onde possa me misturar sem ninguém perceber que não sou dali.

Sou assassino, o melhor. O melhor do mundo. Crimes sem solução. Meu instinto é matar, destruir o que há de ruim, aquilo contrário as minhas vontades, o que está contra mim. O ódio toma conta do meu corpo e da minha alma, os pelos se eriçam, o sangue ferve e a vontade cresce. Aquele será minha próxima vítima. Gosto de olhar bem nos olhos, daquele que será cadáver, antes de matá-lo, quanto mais valente melhor, faço o mijar em suas calças, se tremer todo, encosto-lhe o ferro em sua fronte, no peito e até no ânus. O prazer de fazê-lo sentir medo, desespero, jamais algum conseguiu fugir após uma destas torturas psicológicas. O humilho e trago-o para um mundo desconhecido, alguns acham que são machos, mas não são totalmente até me encontrar e morrer.